Fatos históricos e questões

POLITICA / SEC. XIX BRASIL / LUTA ABOLICIONISTA, ESCRAVAGISTAS SOB DOMINIO DO CULTURAL DA AFRICANIDADE LIVRE OU SEJA! DOS CAPOEIRAS EM MALTAS ORGANIZADAS

Depois da guerra dos mercenários e com o fim da guerra da triplicialiança 1870 em que os capoeiras tiveram grande destaque por serem sobre tudo destemidos, muita coisa em desatenção a estes parecem terem sido esquecidas dos governates a época parecendo de apenas usa-los e trai-los , entre intenções do gov. Imperial surpreendidos mesmos do retorno de muitos para o status de herois nacionais ,apesar de tudo , os reconhecimentos não foram la muito importantes pois! o abandono levou as coisas a grande degenerações pois muitos acabaram por enveredarem por praticas delituosas ,outros sem dignidade batiam mesmos os velhos , crianças e mulheres aterrorizando a população de todas classes socias a prevaleceren-se das vantagens onde estão das habilidades psicologicas e fisicas unidas, usadas para distrair roubar e mesmo assassinar com a introdução da navalha tornando-os mais perigosas as coisas já que tinham o mais viu desdem por arma de fogo(consideravam como recursos dos covardes da cultura a escravizar ).
Registros policiais,apontam para as muitas intervensões que retiraram capoeiras de circulação…ja antes da lei Áurea.
CAPOEIRAS E FADISTAS R.J.
A participação maciça de portugueses nas maltas de capoeiras é sinal de um forte processo de intercâmbio cultural entre a população mais pobre da cidade (na esmagadora maioria negra e mestiça em meados do século) e os imigrantes lusos, que começam a desembarcar em grande número no país no período pós-1850. Para nós a chave desse intercâmbio cultural entre a população negra-escrava e os imigrantes portugueses no Rio da segunda metade do século xix estava no compartilhar de condições de vida e trabalho extremamente próximas. Os imigrantes portugueses e a população negra da Corte dividiam um mesmo nicho ocupacional e, por vezes, moravam no mesmo cortiço, assistiam às mesmas festas, usavam as mesmas roupas e morriam das mesmas epidemias. Mas, além dessa proximidade social e económica, uma insólita ligação cultural contribuiria para entendermos a adaptação rápida do elemento
7 Gladys Sabina Ribeiro, «Cabras» e «Pés de Chumbo», Os Rolos do Tempo. O Antilusitanismo na Cidade do Rio de Janeiro (1890-1930), 2 vols., dissertação de mestrado, ICHF, UFF, 1987. 8 A escola paulista na década de 1960 foi quem mais desenvolveu a tese da anomia social da população negra em consequência da concorrência com o imigrantismo (v. Florestan 688 Fernandes, A Integração do Negro na Sociedade de Classes, São Paulo, Ed. Ática, 1978).
Dos fadistas e galegos: os portugueses na capoeira
português recém-chegado ao jogo da violência urbana, onde o capoeira tinha presença destacada. Aí entramos na figura sincrética do fadista.
O FADISTA
O primeiro estudioso a demonstrar a proximidade cultural entre os portugueses de classe baixa e os capoeiras cariocas da metade do século foi Marcos Bretas num seu artigo sobre a repressão de 1890. Numa rápida passagem ele descreve esse fenómeno:
A forte presença portuguesa no meio da capoeiragem chama a atenção para a forte semelhança com a boémia popular de Lisboa do século xix: os fadistas. Um cronista português da viragem do século chega a afirmar que os capoeiras são os fadistas do Rio de Janeiro. Unidos na tradição de brigas e conflitos, fadistas e capoeiras compartilham a arena de predilecção, a navalha.
Mergulhando nessa pista, podemos perceber com maior nitidez a forte proximidade que une indivíduos separados por tantos quilómetros de mar. O primeiro espanto fica na visualização dos dois tipos sociais nos seus trajes típicos: as calças de boca-de-sino, os cabelos em bandós (soltos, desalinhados), o chapéu desabado, os sapatos de salto de prateleira para o fadista lusitano, equivalem às calças largas, ao paletó-saco desabotoado, à camisa de cor e ao chapéu de feltro do capoeira carioca descritos na narrativa clássica de Alexandre Mello Morais Filho10. Quem era o fadista? Personagem destacada da marginalidade lisboeta do século xix, ele fazia parte, juntamente com as prostitutas, marinheiros, vagabundos e rameiras, do universo do bas fond lusitano. Realça aí a primeira similitude entre os dois tipos culturais alegados: tanto o capoeira como o fadista eram produtos de uma incipiente sociedade urbana do século xix e também filhos da marginalidade citadina. Assim, fadistas e capoeiras compartilhavam uma mesma origem: subprodutos de uma sociedade urbana desigual e violentamente excludente, simbolizavam um universo cultural singular e único. O fadista era personagem inevitável da crónica policial lisboeta e destacava-se não somente pelo canto do fado, hoje símbolo maior da cultura
( Marcos Luís Bretas, A Queda do Império da Navalha e da Rasteira: A República e os Capoeiras, mimeo., Casa Rui Barbosa, pp. 44-45. 10 Alexandre Mello Moraes Filho, Festas e Tradições Populares do Brasil, Rio de Janeiro, Ed. de Ouro, s. d. 689
Carlos Eugénio Líbano Soares)
portuguesa, mas também pela forma singular de luta, caracterizada pelo uso da navalha e pelos golpes de agilidade paralelos aos por nós já conhecidos:
A navalha era o instrumento predilecto da expansão do génio e o argumento decisivo nas disputas e rixas. Um inglês fleumático, mas assustado, de passagem por Portugal, escrevia a propósito: «A maioria dos portugueses veneram a navalha com a ternura de uma arma nacional. Ela é-o de fato e os registos policiais dão eloquentes provas da sua acção. Segui com atenção os movimentos de um desordeiro e vereis que as mãos procuram instintivamente os bolsos, onde a navalha espera o momento de intervir.» […] A certos locais a polícia não ia com receio de andar em bolandas diante do bico dos sapatos e do bico das facas da frandulagem11.
O cronista Tinop, como era conhecido o jornalista João Pinto Ribeiro de Carvalho, na sua colectânea sobre a história do fado, estabeleceu o paralelo entre os capoeiras e os fadistas, como também notaria Bretas mais tarde:
Como os mâitres enfait d’armes do século xviii falavam de papo em esgrimiduras de espadas, também ele [o fadista] fala de cadeira no tocante à esgrima da navalha, que maneja com virtuosidade, pinchando baileiros, pulando com ginásticas felinas de tigre, fazendo «escovinhas», riscando a preceito. Os fadistas do Rio de Janeiro são os capoeiras. Tem havido alguns notabilíssimos pelas proezas12.
O duelo entre Manduca da Praia e Sant`Anna e Vasconcelos selou o encontro entre o fadista da Mouraria e o capoeira Nagôa13. Agora eles caminhariam juntos, tendo como palco as ruas movimentadas da capital do império brasileiro. A gíria do fadista, para completar a união (anexo), guarda extraordinárias semelhanças com o jargão das camadas populares da sociedade fluminense, como poderemos ver no vocabulário dos capoeiras.
11 José Machado Pais, op. cit, p. 47. A descrição do inglês encontra-se em A. Kotnay, John Bull e o Zé Povinho: Análise da Vida Portuguêsa, Porto, s. d., 1918. 12 Tinop (pseudónimo de João Pinto Ribeiro de Carvalho), História do Fado, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1982, pp. 49-50. 13 Tinop, op. cit. Sobre o célebre encontro do capoeira Manduca da Praia e o fadista Santana e Vasconcelos disse Tinop: «O Manduca da Praia — um homem pardo, temível —, que tinha loja de peixe no mercado, pendenciou Santana e Vasconcelos num botequim carioca, mas o nosso compatriota reguingou-lhe com valentia. Santana e Manduca da Praia saíram uma vez de braço dado de um teatro a cuja porta eram esperados por uma alcateia de capoeiras com o fim de os agredirem. Mas os maraus não se atreveram a tocar-lhes e limitaram-se a abrir alas à sua 690 passagem» (p. 54).
Dos fadistas e galegos: os portugueses na capoeira
«Sardinha», «rasteira», «ginga», são alguns dos extraordinários paralelos entre a fala do fadista e a gíria da capoeiragem carioca. Essa proximidade reforça a ideia de um fundo cultural comum, unindo navalhistas de ambos os lados do Atlântico. Outra personagem da fauna das ruas lisboetas que guarda parentesco na Corte era o marialva. Burguês acostumado a frequentar o submundo, ou filho de famílias aristocráticas que percorre a sarjeta, era um ponto de união entre os salões da camada dominante e a vigorosa cultura de rua dos bairros boémios de Lisboa. A cíclica repressão policial que se abatia sobre a vida nocturna lisboeta era motivada pela reiterada presença dessa personagem, como bem afirmou um contemporâneo:
O que tem a ver a polícia com o desleixo paterno que permite que a sociedade dourada de Lisboa prefira, muito a seu talante, a tarina da esquadra ao fofo colchão do lar doméstico? Em vez das aulas, preferem os bilhares; em vez da vida passada na família, preferem os prostíbulos; as batotas ao curso superior; a vadiagem aos empregos honestos […] Marialva era quase sinónimo de estroina. Vadios de estirpe — aristocratas de meia tigela —, para estes marialvas tanto fazia jogar num salão ricamente mobilado à luz de cem velas de spermacetti como apostar numa baiuca iluminada por velas de sebo e com um vigia à porta para dar sinal quando se [aproximava] a polícia […]14
O mais famoso marialva da Corte do Rio foi José Elysio dos Reis, mais conhecido por Juca Reis, filho de importante família lusitana, do qual falaremos mais tarde.
O ENGAJADO
Façamos a travessia. O fim do tráfico atlântico de africanos e a enorme demanda de cativos para as fazendas próximas do vale do Paraíba fluminense, então vivendo o apogeu do café, levaram as autoridades e homens de negócios da Corte a pensarem urgentemente na substituição da mão-de-obra urbana. A imigração lusitana, oriunda principalmente das ilhas dos Açores, foi o recurso mais próximo para trazer braços para a cidade. De acordo com o artigo de Luís Felipe Alencastro sobre a imigração portuguesa no Rio de Janeiro de meados do século15, os primeiros imigrantes portugueses chega
14 José Machado Pais, op. cit., pp. 55-57. 15 Luís Felipe Alencastro, «Proletários e escravos: imigrantes portugueses e cativos africanos no Rio de Janeiro, 1850-1872», in Novos Estudos, CEBRAP, n.° 21, Julho de 1988, pp. 30-56. 691
decreto n°847 de 11 de 0ctubro de 1890 Inrodução da capoeira no Código Penal da República ,capitulo XIII dos vadios e capoeiras em seus artigos 402,403 e 404. continuidade de prisão e deportação dos capoeiras criminosos para o Presidio de Fernando de Noronha para a Colônia correcional de Dois Rios na Ilha Grande.

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